terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Amigo ou Vilão?

O tucanoçu (Ramphastos toco) é uma ave típica que encanta os brasileiros pela sua beleza e pelo seu porte avantajado em relação a outros membros de sua família ramphastidae. Apreciam a nidificação em ocos de árvores e outras cavidades naturais. É uma ave de hábitos frugívoros mas que eventualmente aventura-se na predação de ninhegos, ou seja, filhotes de outras aves que ainda se encontram no ninho. Tal fato vem assombrando algumas pessoas, principalmente aquelas que em meio ao descanso do seu sítio se deparam com um tucano devorando um filhote de joão-de-barro na porta do ninho. Aliás, não vejo pra tanto como desiquilíbrio o fato de predar ninhegos, como sabemos, na natureza pra tudo se tem um motivo.


O tucanoçu, diferentemente dos outros tucanos e araçaris preferem áreas menos florestais. Não é certo afirmar que a ave é exclusiva do bioma Cerrado, pois consta na literatura sua distribuição na Mata Atlântica e parte da Amazônia. É bem verdade, nesses biomas existem ilhas de Cerrado e com o crescente desmatamento desses biomas ao longo dos anos esta espécie vem ampliando a sua área de atuação no Sudeste invadindo inclusive às zonas urbanas. Da mesma forma que as maritacas, não mais do que  15 a 20 anos atrás não se via tucanos com frequência. Eu lembro ter visto uma vez apenas quando criança e depois de um longo tempo, pude observar gradualmente a sua invasão em massa, seja nas cidades, seja nos campos. 



Aqui no sul de Minas Gerais e em grande parte do Sudeste, o representante dos ramphastídeos que mais condiz com a Mata Atlântica é o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Este, está mais restrito às áreas mais florestais e serranas. Não se sabe ao certo das consequências desta invasão do tucanoçu em relação a essas espécies mais florestais, se há uma competição ou não, embora eu tenha avistado espécimes em bordas de mata pouco se adentrando para o interior. O fato é que os ecossistemas de ambos são bem distintos o que não garante uma tomada de território por parte do tucanoçu, por ser maior e supostamente dado como invasor. 

Os membros desta família infelizmente ou felizmente evoluíram na predação de ninhegos, o que também desmistifica a fama do tucanoçu de ser o vilão exclusivo deste ato alimentar. É comum ver investidas de tucanos em ninhos e a passarada unida se jogando ao ataque, entres eles bem-te-vis, suiriris, tesourinhas e outros caras. A desistência pelo ninhego é iminente. Certamente, este tucano tentará outros ninhos e mais uma vez será muito bem "recebido."


Assim como as maritacas, há um estresse ecológico evidente que empurra esses animais para novos lugares. Falta mais árvores frutíferas nos campos e nas matas, o que certamente condiciona a espécie a explorar, e principalmente aumenta a predileção por ninhegos, o que melhor explica o seu hábito alimentar duvidoso por muitos e mais secundário em seu habitat natural e equilibrado. 

Portanto, vamos enxergar o tucanoçu como uma ave que nos encanta pela sua beleza! Admirá-la e perceber o quanto é fotogênica pelas lentes! Vamos nos divertir quando seus ataques a ninhegos são interrompidos pelos outros pássaros. Se há responsáveis por essa invasão somos nós, os homens! Ávidos por consumo e produção desenfreada.


     Foto: Fernando Capela

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