sexta-feira, 21 de maio de 2021

Versos de Sabedoria

 

O Gambá

 

“Me chamam de agourento

Desajeitado, feio e fedorento

Me chamam até de rato

Mal sabem o que sou de fato

É bem verdade, trabalho de graça

Nem de longe sou uma ameaça

Gosto da noite, portanto sou discreto

Ninguém vê como gosto de inseto

Planto árvore, pois gosto de fruta

Ainda assim, carrego a fama de biruta

Ah! Como é ruim ser incompreendido!

Mas depois destes versos, quem sabe serei correspondido.”

 

Fernando Capela





quinta-feira, 20 de maio de 2021

Em tempos de pandemia podemos refletir na seguinte ideia...

Herança Darwinista?

Durante o século XIX, a igreja ainda sobrepunha os conhecimentos da sociedade e eis que surgiu um homem devoto a Deus e que naquele instante quebraria um paradigma importantíssimo da história. Charles Darwin foi o naturalista britânico que a bordo do Beagle (navio enviado pela coroa destinado a mapear o hemisfério sul) durante quatro anos e nove meses de viagem colocaria posteriormente em xeque a supremacia da Igreja e o criacionismo como única teoria viável possível da formação do universo. É bem verdade, o século XIX foi a ruptura de um mundo sedento por mudanças drásticas. Foi o século divisor de águas para que a humanidade abandonasse de vez as trevas para entrar na modernidade, o que foi designado o“Século das Luzes.”

A ciência e a filosofia tomam conta do cenário junto ao ápice de uma Revolução Industrial a todo vapor, literalmente! Darwin em seus experimentos e abordagens vividas a bordo do Beagle levaram no, a compilar os dados coletados na publicação de um livro, lançando em 1859 “A Origem das Espécies.” Livro este que explica a teoria da evolução, que para época um escândalo cultural e para crença vigente. Sendo assim, Darwin foi considerado como “O Homem que matou Deus!”

Interessante frisar que Darwin nunca abdicou de suas crenças, como naturalista e cientista nato simplesmente levou a fundo os seus estudos.

Com Darwin aprendemos que as características adquiridas são herdadas por um processo que ele ainda desconhecia. Era ciente que os mais aptos sobreviveriam passando os seus dotes para as futuras gerações. Os mais fracos padeceriam diante um mecanismo evolutivo chamado de Seleção Natural. Na visão de Darwin, a natureza era hostil. Só os fortes sobreviveriam em detrimento aos mais fracos numa competição sem precedente. Darwin analisava a espécie como indivíduo, que de certa forma, aliada a ascensão da Revolução Industrial moldou a personificação de um homem competitivo e individualista para os anos e décadas posteriores. Tal fato, deflagrou o sistema capitalista insustentável e potencializou um ser humano egoísta e ganancioso.

Vale ressaltar uma semelhança com a teoria Marxista da problemática, no entanto, a ideia de indivíduo aqui neste texto retratada exclui a visão política/econômica ideológica, pois remete a espécie humana como um ser biológico e sua conduta moral.

Darwin não previu e nunca imaginaria, considerando a sua importância e legítimo legado para a história da ciência moderna que o homem do século XX e XXI transformasse o planeta Terra num caos. O nosso sistema se tornou a própria selva, onde a seleção natural proverá para aqueles que estiverem mais aptos a competir. As escolas preparam as crianças para serem competidoras e não pessoas. Desde muito cedo nos foi imposto para a individuação (“EU”) em detrimento ao coletivo.

A vida nas cidades tornou-se o ambiente hostil da selva onde só os fortes se destacam, produzindo finalmente uma imensa massa desempregada, desabrigada e desamparada.

Nós seres humanos, assim como todos os seres vivos, somos compostos por células. Estas se compartilham para definir um organismo, assim se fez a diferenciação de um ser unicelular para pluricelular. Num ambiente totalmente turbulento de formação da Terra, da vida, a união fez a força, as células se juntaram! Temos e devemos ter a predisposição para o coletivo ao analisarmos por agora o ambiente externo (turbulento), o quanto o planeta necessita da nossa força coletiva. A individuação em tempos de pandemia cai em desuso, temos a escolha de exercermos a caridade.

Tempos difíceis nos dão a oportunidade de olharmos para dentro para enxergarmos a centelha divina que nos foi colocada pelo TODO para sermos DIVINOS! Pois, o universo é amor! Se Darwin matou mesmo Deus ainda prefiro ficar com esta frase: “Amai ao próximo como a ti mesmo!”

Palavras de um biólogo.

segunda-feira, 10 de maio de 2021

 Seja um Pássaro

 

Se tem algo que me deixa possesso é ver um passarinho na gaiola. É certo que sou suspeito para afirmar isso por ser um ornitólogo, desde criança. No entanto, muitas pessoas compartilham deste sentimento. Imaginem um animal projetado para voar! Todo um aparato anatômico e morfológico para tal e alguém mal-intencionado coloca o bicho preso! Se for para cantar, canta de tristeza!

Talvez deveríamos nos perguntar se estamos também presos numa gaiola. O fato é que, assim como as aves também nascemos para voar. Como assim?

Vivemos num mundo onde a condição de sobrevivência depende muito da meritocracia e da competição incessante. Fomos educados a sermos competitivos e trabalharmos que nem um louco parar atingirmos o tal "sonho americano."  O que é um absurdo pensar já que possuímos, cada um, uma essência divina particular para contribuir com o mundo e retornar para o universo o que ele nos deu de melhor. Somos formais demais! Parecemos robôs numa linha de produção. Escravos de um sistema que nos deixam doentes, pois abdicamos de ser o que realmente somos!

Quem é você? 

A pandemia está nos deixando malucos por conta do confinamento. As redes sociais não suprem a necessidade das relações interpessoais. Nos foi imposto uma condição de eremita sem ao menos darmos conta do que vem a ser este arquétipo. O eremita nos faz repensar e refletir. Olhar para dentro e nos conhecermos. Será que tem gente que está aproveitando desta oportunidade? Somos uma espécie que caminha do homem animal para o homem espiritual. Herdamos instintos e um pacote de características daquele ser humano das cavernas que lutava para sobreviver. A emoção em detrimento a razão ditava as regras. Chamamos estas características de defeitos e não transformamos estes em virtudes pelo simples fato de sermos egocêntricos e escravos deste mundo que nos tornam mais próximos do homem das cavernas. Platão foi sábio à 600 a.c. em um dos seus capítulos da "A República" no "Mito da Caverna."

Devemos nos conhecer. Reconhecer e transformar tais defeitos em virtudes. Assim seguimos rumo ao ser espiritual. Isto é evolução e ferramenta para solucionarmos vários problemas do nosso cotidiano. Como resolvê-los se nem ao menos nos conhecemos? Liberte-se, "seja um pássaro!" Saia desta gaiola! Voe para a vida, para a liberdade de ser o que realmente você é de verdade! A felicidade mora nestas pequenas atitudes. Embora seja algo muito difícil. A reforma íntima é uma dádiva, a escolha e o sofrimento são opcionais.


canário-da-terra (Sicalis flaveola)





quarta-feira, 10 de maio de 2017

Asa-Branca





A asa-branca (Patagioenas picazuro) é a pomba que mais chama a atenção nos últimos anos em se tratando de aves urbanas. Assim como as maritacas essas pombas de tamanho avantajado não eram tão comuns na região Sudeste até a chegada dos anos 2000. Ressalto que não quero aqui afirmar números com precisão, são apenas dados de observação pessoal. A ideia deste blog é justamente a participação do leitor para confrontarmos as ideias e experiências. Lembro do meu pai nos anos 80 comentando sobre uma tal de pomba-legítima ou pomba-galega, uma tal pomba grande e rara de se ver (Sul de Minas). Não imaginava que seria a asa-branca.

Pois bem! A asa-branca é a maior das pombas brasileiras que ganhou certo destaque na canção popular de Luiz Gonzaga intitulada de "Asa-Branca", onde o compositor retrata a vida dura e ardente do sertão nordestino, pois até mesmo a Asa-Branca bateu asas do sertão, então eu disse adeus Rosinha, guarda comigo o meu coração".

Sua identificação é muito facilitada pela faixa branca que possui na asa, sobretudo quando está em voo. Aliás, o barulho do voo também chama muita atenção, o que facilita também, para os mais atentos, o registro da espécie.

Esta pomba ultimamente vem aumentando a sua área de distribuição no Sudeste devido à expansão agrícola. São aves que formam bandos enormes podendo percorrer grandes distâncias e em grandes altitudes. Sua alimentação baseia-se em sementes e frutos coletados no solo. Tal fato tem dado muita dor de cabeça para o produtor rural quando a asa-branca reúne-se em grandes bandos nas lavouras, especialmente milharais pós, colheita. É uma pomba bem adaptada às áreas abertas e em locais mais urbanizados, então o confronto com o homem é inevitável já que esta pomba acompanha o desmatamento e vê nessas áreas, oportunidade, certa de alimentação e reprodução. Esta afirmação é bem coerente quando se enxerga o mapa de distribuição da espécie no site  do wikiaves (https://www.wikiaves.com.br/wiki/pomba-asa-branca), a pomba praticamente desaparece em áreas totalmente florestadas, como se pode observar nos Estados restritos a região Norte.

É muito comum nas cidades, logo ouvir pela manhã a sua vocalização típica "huuuu hu huuuuuu" Em zonas urbanas a asa-branca possui hábitos solitários ou pode ser vista em casais, dificilmente em bandos como se vê em campo. É comum também observá-las dividindo o espaço de alimentação em comedouros com canários e rolinhas, o que demonstra a sociabilidade desta pomba adquirida em poucos anos. Eu particularmente vejo na asa-branca uma pomba exuberante! Enche-me os olhos observá-la, seja no campo ou nas cidades. Sua ascensão sulista se deu ao fato único e exclusivamente ao homem, responsável direto pela expansão de sua distribuição. Assim como ocorreu com outras aves, o homem perturba o ambiente e depois reclama das consequências.

 Eu quero é mais ver a asa-branca, fazendo o seu voo ao entardecer e anunciando a sua presença nas manhãs.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Voltou pra Ficar


Não me lembro do canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) antes da sua nova ascensão. Sabia da sua existência apenas em viveiros e gaiolas. Foi considerada uma espécie quase que extinta por aqui, no sul de Minas, muito visada e caçada devido ao seu grande apelo canoro e principalmente, pela sua linda plumagem amarelada, exclusiva do macho. É considerada entre as 10 mais apreendidas segundo relatórios do IBAMA. Tal característica marcante do amarelo lhe rendeu o posto de mascote da seleção brasileira de futebol com o slogan "seleção canarinho", muito bem explorado pela seleção de 1982.

Seu desaparecimento na época, deu-se por conta também, da intoxicação pelo uso abusivo de agrotóxico nas lavouras, já que o canário-da-terra é  uma espécie granívora, ou seja, alimenta-se de sementes, especialmente sementes de capins. É muito comum vê-los se alimentando em capinzeiros e pastagens de beira de estrada junto às coleirinhas, bigodinhos e tizius. Houve um tempo, em alguns lugares do sul de Minas que a lavoura de arroz foi dominante nas áreas mais alagadas. Talvez ali, tal fato foi preponderante para o desaparecimento da espécie devido ao uso do roundup glifosato.

No entanto, o fato é que o "canarinho" voltou, e com força total! A ponto de ocupar e disputar espaço com o pardal! Suas populações têm aumentado exponencialmente, principalmente em locais de grande movimentação humana nas zonas rurais onde o manejo de criações tornou-se o seu principal reduto por conta do trato de animais a base de grãos.

Nas cidades, sua movimentação é mais discreta, porém já se ouve em qualquer esquina. É comum acordar de manhã e passear pelas ruas e avistar um casal se alimentando.

O que o trouxe de volta? Em minha região, a uns 10 anos atrás, dificilmente se via canários nas cidades. Avistava-se eventualmente nas zonas rurais. A uns 20 anos então, não se via em lugar algum. As pessoas foram criando em cativeiro com o intuito de soltá-los gradualmente, principalmente proprietários de terra e donos de xácaras que aderiram à ideia e foram disseminando-a. O bicho foi se espalhando para todo canto com uma capacidade de reprodução incrível e grande habilidade em ocupação de espaço, basta pendurar uma cabacinha que logo já se vê uma fêmea fazendo o reconhecimento da futura chocadeira. 

É bem verdade, as Leis punitivas foram ficando mais rigorosas, embora ainda bem longe do ideal. O canarinho é tão querido que hoje se teme o fato do sujeito ser "dedurado" caso opte por caçá-lo e criá-lo em gaiola.

Segundo relatos de pessoas mais velhas, que já viveram o auge da espécie em outras épocas, o canário-da-terra de hoje voltou do cativeiro um pouco modificado em relação aos seus hábitos originais. O canário de hoje tem hábitos bem mais gregários, certamente por ter sido criado aos montes em cativeiro. Inclusive, segundo relatos desses mais antigos passarinheiros o seu canto voltou um pouco modificado. O fato é que ainda assim, já consegui ver disputas acirradas de machos por fêmeas em períodos reprodutivos onde é muito comum ver casais separados do bando.

Sua ocupação ostensiva não gera impacto, muito pelo contrário, é possível perceber o quanto a sua ascensão ajudou a controlar o ímpeto do pardal e das pombas, equilibrando assim as populações da avifauna urbana e rural. A presença do canário-da-terra nos inspira felicidade! Ao ouvi-lo solto nos dá a sensação de paz, pois sua presença purifica o ambiente de beleza e nos remete ao campo, em plena selva de pedra.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Bem vindo Sr. Cururu!


Dificilmente, nos dias de hoje, nos deparamos com sapos nas cidades. Aquele mesmo, o cururu, alvo fácil de agressão das pessoas. 

Se existe um bichinho injustiçado, esse bicho é o sapo. Baixinho, feio, barrigudo, não sabe andar... Verdade! Portanto, ninguém lembra que ele é muito útil e importante para o equilíbrio ecológico, justamente por ser um devorador nato de insetos. Aliás, não faz mal a ninguém - a menos que o agridam.

 Algumas espécies, como o cururu possuem hábitos domésticos, convivendo com patos e galinhas junto às sedes dos sítios e fazendas, ruas de cidades onde as luzes dos postes e das casas atraem maior quantidade de insetos.

 Quanto a tal fama, tudo invencionices e crendices. Sempre enalteci o sapo, sua importância, no entanto, só recebi chacota e repulsa.

Úteis como as aves só nos fazem o bem, alimentando-se de insetos numa quantidade igual à de uma ave insetívora. A sua população é bem mais superior à das aves, o que as torna mais efetivas no processo de equilíbrio da cadeia biológica. Alguns pesquisadores acreditam que apenas um sapo-cururu coma 5.000 insetos por semana!

 O duro é desfazer a imagem negativa do sapo: "Engolir sapo", por exemplo, é ouvir desaforo ou suportar uma coisa desagradável sem reagir. Ah!” Tem festa no céu,” sapo não entra!

Para ressaltar a importância do sapo na natureza, é que eles, como os cururus, não vivem somente no brejo, nas lagoas ou beira de rios. Existem espécies que habitam terrenos secos e florestas, o que amplia o seu campo de atuação no controle de insetos. Com certeza executa um trabalho extremamente útil à agricultura. Todavia, parece longe ainda o dia em que o pobre do sapo terá reconhecido o seu papel.

Ainda vemos pessoas malvadas que os chutam para longe, como se fossem bolas de futebol ou os fazem fumar cigarro até estourar! Bizarrices como jogar sal em suas costas. Isso não é tudo, o uso indevido de agrotóxicos está envenenando os sapos, rãs e pererecas, poluindo as suas águas.

Quando avistarem um sapo, contrate-o. Trabalha de graça, não reclama e é inofensivo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Prática da Observação de Aves como Atividade Meditativa

Quando pensei na prática de observação aves com o intuito contemplativo, na época, não me atentei a meditação. Até então essa atividade só me despertava a curiosidade, mal sabia que ao observar as aves, durante longas caminhadas, munido de máquina fotográfica e binóculo eu já estava meditando. A meditação surgiu na minha vida durante a formação holística e gradualmente fui adentrando e conhecendo o universo desta prática milenar. Com a observação de aves pude perceber o quanto focamos a atenção plena no que estamos fazendo. Focamos no tempo presente e não deixamos que os pensamentos interfiram no nosso propósito. A ideia desta prática é justamente registrar as espécies utilizando dos sentidos básicos, da visão e audição.

Para os mais atentos, a prática não se limita apenas em registrar, leva-se em consideração também a observação comportamental da espécie - o que tal ave está se alimentando, seus hábitos reprodutivos, ecossistema ao qual ela se insere, modo como voa... enfim, tem para todo gosto. Tais comportamentos nos propõe ao foco, à atenção plena.


Quando saio para observar aves logo vem a sensação de bem-estar, de leveza. A natureza nos dá o feedback divino, pois nela encontramos os elementos necessários para a nossa paz interior. Aquela insatisfação inerente ao ser humano, logo é dissipada quando nos encontramos em pleno estado de contato com a natureza, seja com o barulho da água, seja na sensação de sentir o ar puro entrando e saindo, ou mesmo na percepção de identificar as vozes da mata. A prática da observação prevê o estado pleno de atenção ao separar as vocalizações das diferentes espécies. O trabalho meditativo já começa na postura do observador, na sua atenção ao caminhar para não fazer barulho, na sua preocupação em conhecer e identificar as espécies.

A observação de aves e o seu modo contemplativo nos carrega para o "agora", nos curas de qualquer ansiedade. As sensações positivas ao final das caminhadas são bem evidentes - esporte, lazer e muita troca de conhecimento, a prática nos põe em contato com o nosso "eu" a medida que as andanças tornam-se cada vez mais prazerosas. A contemplação da natureza nos dá a sensação e a certeza de que a vida pode ser bem mais simples, haja vista que o nosso remédio, é bem verdade, está muito perto, bem a nossa volta. Basta observarmos e usufruirmos desses elementos naturais com muita vontade. Vontade de entender, compreender as relações naturais e almejar pela nossa mudança interior.





sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O Rei das Cidades



                                  Foto: Fernando Capela

                                                          

Segundo relatos históricos, em 1903, quando o Rio de Janeiro se portava como um vasto hospital, mergulhado em epidemias, o prefeito Pereira Passos autorizou a introdução do pardal (Passer domesticus) para que esse combatesse efetivamente as pragas que alastravam a cidade. Oswaldo Cruz, era o diretor-geral da saúde pública no país que na época coordenava as campanhas de erradicação da febre-amarela e varíola na cidade do Rio de Janeiro. Soube de um amigo influente de Portugal que por lá existia um passarinho generalista na alimentação e população abundante, que havia se espalhando pelo mundo. Oswaldo Cruz não pensou duas vezes e com o aval do prefeito o pardal foi introduzido na cidade do Rio de Janeiro se alastrando posteriormente pelo Brasil.

De qualquer forma, um dia ou outro tal fato aconteceria, pois, trata-se de uma espécie cosmopolita, ou seja, encontrada em todo o mundo, em diferentes climas e temperaturas. O fato de ser generalista certamente favoreceu a sua excelente capacidade adaptativa e reprodutiva.

Nas cidades formam bandos de até 100 indivíduos, pois possuem comportamentos variados, são altruístas e gregários, mas podem também ser solitários e territorialistas. Não tenho dúvidas que o pardal é a voz das cidades, não possui um canto, mas um piado característico, que começa nas primeiras horas do dia.

O pardal se especializou a vida urbana. É um oportunista nato, pois encontrou nas cidades o nicho ideal para o sucesso de sua espécie. Além de se alimentar de tudo, o pardal se especializou na arte de ocupar espaço, como diz no popular "não tem tempo ruim!" Inclusive, essa capacidade vem atrapalhando a reprodução de outras espécies como as andorinhas.

Na evolução, é comum verificarmos que algumas espécies migraram para outros locais, caso contrário não seria possível efetivar o surgimento de novas espécies. O pardal é um invasor que já faz parte da fauna brasileira, com uma particularidade importante: a medida que se avança para a zona rural suas populações vão diminuindo. Quanto mais preservado for o local menor será a probabilidade de se encontrar um pardal. O pardal evoluiu no acompanhamento das atividades do homem. Seria trágico se este invasor fosse apreciador de áreas mais naturais, mas não, prefere áreas que já se encontram alteradas pelo homem. Sendo assim, seu potencial invasor se funde ao cotidiano do homem pouco interferindo nas relações ecológicas de outras espécies. Talvez, o pardal seja o nosso grande leão de xácara das cidades, predando pragas e insetos indesejáveis, além de ser um ótimo catador de lixo.

Para os que reclamam das suas grandes populações, verão que o reinado nas cidades se vê ameaçado por outras espécies que chegaram para ficar. Pude observar, em função disso, que as populações de pardais tem diminuído significativamente. Embora ainda muito populosos os pardais vêm perdendo espaço para maritacas e canários-da-terra. Estes com populações reduzidas, mas que conseguiram de certa forma frear o ímpeto do pardal nas zonas urbanas.   

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Amigo ou Vilão?

O tucanuçu (Ramphastos toco) é uma ave típica que encanta os brasileiros pela sua beleza e pelo seu porte avantajado em relação a outros membros de sua família Ramphastidae. Apreciam a nidificação em ocos de árvores e outras cavidades naturais. É uma ave de hábitos frugívoros, mas que eventualmente aventura-se na predação de ninhegos, ou seja, filhotes de outras aves que ainda se encontram no ninho. Tal fato vem assombrando algumas pessoas, principalmente aquelas que em meio ao descanso do seu sítio se deparam com um tucano devorando um filhote de joão-de-barro na porta do ninho. Aliás, não vejo para tanto como desiquilíbrio o fato de predar ninhegos, como sabemos, na natureza para tudo se tem um motivo.

O tucanuçu, diferentemente dos outros tucanos e araçaris preferem áreas menos florestais. Não é certo afirmar que a ave é exclusiva do bioma Cerrado, pois consta na literatura sua distribuição na Mata Atlântica e parte da Amazônia. É bem verdade, nesses biomas existem ilhas de Cerrado e com o crescente desmatamento desses biomas ao longo dos anos esta espécie vem ampliando a sua área de atuação no Sudeste invadindo inclusive às zonas urbanas. Da mesma forma que as maritacas, não mais do que 15 a 20 anos atrás não se via tucanos com frequência. Eu lembro ter visto uma vez apenas quando criança e depois de um longo tempo, pude observar gradualmente a sua invasão em massa, seja nas cidades, seja nos campos.

Aqui no sul de Minas Gerais e em grande parte do Sudeste, o representante dos ramphastídeos que mais condiz com a Mata Atlântica é o tucano-de-bico-verde (Ramphastos dicolorus). Este, está mais restrito às áreas mais florestais e serranas. Não se sabe ao certo das consequências desta invasão do tucanuçu em relação a essas espécies mais florestais, se há uma competição ou não, embora eu tenha avistado espécimes em bordas de mata pouco se adentrando para o interior. O fato é que os ecossistemas de ambos são bem distintos o que não garante uma tomada de território por parte do tucanuçu, por ser maior e supostamente dado como invasor.

Os membros desta família, infelizmente ou felizmente evoluíram na predação de ninhegos, o que também desmistifica a fama do tucanuçu de ser o vilão exclusivo deste ato alimentar. É comum ver investidas de tucano sem ninhos e a passarada unida se jogando ao ataque, entres eles bem-te-vis, suiriris, tesourinhas e outros caras. A desistência pelo ninhego é iminente. Certamente, este tucano tentará outros ninhos e mais uma vez será muito bem "recebido."

Assim como as maritacas, há um estresse ecológico evidente que empurra esses animais para novos lugares. Faltam mais árvores frutíferas nos campos e nas matas, o que certamente condiciona a espécie a explorar, e principalmente aumenta a predileção por ninhegos, o que melhor explica o seu hábito alimentar duvidoso por muitos e mais secundário em seu habitat natural e mais equilibrado.

Portanto, vamos enxergar o tucanuçu como uma ave que nos encanta pela sua beleza! Admirá-la e perceber o quanto é fotogênica pelas lentes! Vamos nos divertir quando seus ataques a ninhegos são interrompidos pelos outros pássaros. Se há responsáveis por essa invasão somos nós, os homens! Ávidos por consumo e produção desenfreada.


     Foto: Fernando Capela

domingo, 8 de janeiro de 2017

Êxodo das Maritacas

Há exatamente 15 anos pouco se via ou ouvia maritaca em cidades do sul de Minas Gerais. Seu ingresso à vida urbana por aqui é recente sem ao menos dar indícios para as pessoas do real motivo do seu aparecimento. O nome popular "maritaca" é antigo no sul de Minas, diferentemente da sua designação popular na literatura a qual determina "periquitão-maracanã." Quando criança, nas andanças pela roça, lembro-me de avistar bandos de 30 a 40 aves voando e vocalizando. Algo na época realmente restrita às zonas rurais. O que ocorreu de fato para que esses animais pudessem invadir tão repentinamente as nossas cidades?

Não se sabe ao certo. No entanto, várias respostas podem ser coerentes ao analisarmos os impactos ambientais ocorridos nos últimos 500 anos. Aliás, um estresse ecológico pode ter sido o grande fator responsável pela migração das maritacas às cidades.

A repulsa por essa ave nas cidades tem sido enorme. É reclamação que não acaba mais! A maritaca possui o hábito de se acomodar nos forros das casas, gerando problemas como predação de fiação elétrica e responsável pela algazarra nas primeiras horas do dia, perturbando o sono de muita gente. É bem verdade, os forros podem ser vedados e a fiação elétrica protegida. Portanto, o fato é que as pessoas preferem reclamar e não solucionar. Preferem avaliar a situação de forma imediatista e não analisar as verdadeiras consequências desta invasão.

A maritaca ou periquitão-maracanã (Psittacara leucophythalmus) é uma ave da ordem dos Psittaciformes, junto aos papagaios, araras, periquitos e maracanãs. Encontrada em praticamente todo o Brasil, exceto em algumas localidades da região Nordeste, pela sua larga distribuição já nos dá um diagnóstico da problemática - é uma ave bem adaptativa não exigindo ambientes específicos. Como todos os membros da ordem apreciam frutas, não a polpa, mas sim as sementes. Portanto, não são dispersoras, são predadoras de sementes. Podem ser predadas por algumas espécies de gaviões, embora a carne desses bichos não seja tão apreciada. Sendo assim, o índice de predação desses animais em zonas urbanas é raro, já que encontramos também poucas espécies de gaviões em cidades. Tal fato favorece a grande incidência de maritacas nas zonas urbanas, pois quase não possui predador natural. A facilidade de acomodação nos forros e a pouca manutenção das casas propiciam a sua residência, além da quantidade expressiva de árvores e quintais em algumas cidades brasileiras, favorecendo-se assim a oferta de alimentos.

Em ambiente natural, a maritaca faz seus ninhos em ocos de árvores. A destruição da Mata Atlântica tem sido contínua, principalmente na região Sudeste, principal reduto atual da espécie. Um fato que deve ser observado é a pouca importância dada as árvores mortas, locais propícios para a nidificação de psittacídeos. O desmatamento frequente, a falta de alimentação e de estabelecimentos para a nidificação empurra as maritacas para as cidades. Não há outra explicação mais óbvia que explique tamanho êxodo desses animais. O certo é que devemos pensar o quanto temos sido negligentes com a natureza e a invasão das maritacas aos centros urbanos nada mais é que uma resposta imediata em relação aos nossos maus hábitos - de ganância, falta de conhecimento do campo e amor ao planeta.


     Foto: Fernando Capela

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Terra da Gente: Marmelópolis

Foi um prazer e uma alegria imensa ter recebido a equipe do Terra da Gente na minha cidade, em Pedralva, sul de Minas Gerais. Bom mesmo, numa segunda oportunidade de participação minha no programa foi ter conhecido uma simpatia de pessoa, o Sr. Maeda. Um japonês dono da pousada (1.500 metros de altitude) onde nos hospedamos e que foi o centro e figura primária das gravações.

A cidade de destino desta vez foi Marmelópolis, também no sul de Minas Gerais, limítrofe com o estado de São Paulo, encravada na Serra da Mantiqueira.



Localização Pousada Maeda

A pousada é muito bem localizada, abaixo do ponto mais alto daquelas imediações, o "Marinzinho (2.432 metros de altitude)". Maeda construiu sua vida por aquelas bandas, escalando, explorando e abrindo trilhas, utilizando-se de sua larga experiência como montanhista. Sendo assim, montou um museu em sua própria pousada o que possibilita ao hóspede e/ou turista registrar suas andanças através de fotos e equipamentos de montanha deste senhor que já andou muito por esta América do Sul ainda quando jovem. Até que o destino lhe reservou cair de para-quedas numa cidade pacata do sul de Minas Gerais. Maeda, ao lado de sua esposa Karina, dedicou sua vida a pousada e as belezas daquela região. Desbravou as trilhas as quais hoje muito são utilizadas e apreciadas pelo turismo - do Marins à Pedra da Mina entre outros lugares paradisíacos típicos da Serra da Mantiqueira que nos contemplam com a altitude, o frio, a biodiversidade e a paz de espírito.


     Foto: Fernando Capela

Sr. Maeda

Maeda representa o homem do campo das montanhas - a humildade e tranquilidade de quem preserva a natureza e ama o que faz.


     Foto: Fernando Capela

Pousada Maeda e o Marinzinho ao fundo.


     Foto: Terra da Gente

Equipe da reportagem






A Pousada Maeda está localizada no bairro Serra dos Ramos. Telefones para contato: Fone (19) 32526834 ou (35) 99498803 
Marmelópolis - MG.



quarta-feira, 13 de abril de 2016

Observação de Aves - Saiba mais!

A observação de aves ou birdwating é uma prática que envolve milhões de pessoas em todo o mundo. Nenhum outro grupo animal silvestre exerce maior atração sobre as pessoas, para a sua simples contemplação.

A observação de aves é uma importante atividade de conexão entre ciências biológicas, turismo e educação ambiental. É uma alternativa de lazer o qual vem sendo gradualmente divulgada no Brasil. A atividade traz estímulo intelectual e espiritual, envolvendo caminhadas ao ar livre, com maior ou menor grau de dificuldade e contato com a natureza. Ou seja, reúne ingredientes que reconhecidamente são fundamentais para melhorar a qualidade de vida das pessoas e desenvolver o turismo local.

A observação de aves é um segmento da atividade turística, que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva a sua conservação e busca a consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas. É uma excelente atividade que influi positivamente no estado físico e emocional das pessoas. É a conexão direta com o meio natural, praticando exercício e estimulando o conhecimento.



No Brasil essa atividade vem ganhando força nos últimos anos devido a sua grande diversidade de espécies.  É uma atividade bastante difundida na Europa e América do Norte, o qual tem gerado mais de 30 bilhões anuais na economia só nos Estados Unidos.  A prática de observação da fauna é considerada a prática mais sustentável dentre todas as que são identificadas como ecoturismo, e, destas, a observação de aves constitui a mais difundida e a mais amplamente praticada em todo mundo, principalmente, nos países mais desenvolvidos. 

Todo lugar é interessante de se ver aves, mas certamente as unidades de conservação são os preferenciais, por serem, em geral áreas naturais preservadas. A Mata Atlântica, por exemplo, é conhecida mundialmente por sua grande biodiversidade.

Vale ressaltar que a prática de observação de aves não se limita apenas às pessoas formadas nas áreas de biologia, meio ambiente ou turismo. Qualquer pessoa é capacitada para a prática contanto que se posicione de forma satisfatória de seus atos e conduta perante a natureza.



segunda-feira, 11 de abril de 2016

Conduta Ética do Observador

Deve-se considerar, como premissa básica da observação, que nenhuma ave deverá ser incomodada. A aproximação diante de ninhos e aves em processos reprodutivos deverão ser evitados. A observação responsável pretende fazer com que o observador leve uma imagem satisfatória da atividade. Levando-se em consideração a preservação e o bom estado ambiental. O observador como um ecoturista nato deverá evitar qualquer tipo de dano ao local utilizado para a prática.

O andar deve ser silencioso, pois gestos rápidos e bruscos assustam as aves. No interior de mata, o andar deve ser mais cauteloso, devido às folhas secas e galhos no solo. Quanto mais lentos forem os movimentos, maior a oportunidade de se aproximar das aves. Ansiedade é um defeito que não compactua com a observação de aves. O ansioso quer ver a espécie o mais rápido possível, perde a paciência, faz barulho até resolver ir embora. É certo afirmar que a própria prática, com o tempo, serve de terapia para extirpar a ansiedade. As primeiras vezes podem ser frustrantes, devido à inquietação das aves, principalmente as de ambientes mais florestais. À medida que o observador vai aumentando suas saídas para campo os sentidos vão aumentando proporcionalmente.

Por questão de segurança, sempre é bom fazer os passeios de observação acompanhado por uma ou algumas pessoas. A limitação de pessoas facilita também no bom andamento da observação, pois, menos pessoas menos chances de afugentar as aves.

A tolerância das aves com a presença humana vai depender da espécie ou da época do ano. Portanto, o observador deverá ter cautela para não alterar o comportamento das aves como evitar falar demais e elevar o timbre da voz. Somente se faz necessário a comunicação com assuntos relacionados sobre a observação.

As Leis são excelentes suportes que dão respaldo as atividades de observação. Conhecer as Leis de Conservação e Proteção são requisitos básicos para o observador que almeja colecionar avistagens.

Portanto, o observador, como ecoturista possui a credencial de que essas Leis não sejam esquecidas.

 - Lei da Área de Proteção Ambiental – número 6.902 de 27/04/1981.

- Lei de Crimes Ambientais – número 9.605 de 12/02/1998.

- Lei das Florestas – número 4.771 de 15/09/1965.

- Lei da criação do IBAMA – número 7.735 de 22/02/1989.

- Lei Patrimônio Cultural – decreto-lei número 25 de 30/11/1937.

- Lei da Ação Civil Pública – número 7.347 de 24/07/1985.


sábado, 9 de abril de 2016

Quando observar Aves

Basicamente, podemos avistar aves a qualquer hora do dia, em qualquer época do ano.  Alguns horários são melhores para a observação, pelo fato de que as aves estão mais ativas, como ocorre logo nas primeiras horas da manhã e nas últimas horas do dia (entre 06:00 às 10:00 e no final da tarde, das 15:00 às 18:00 horas). No entanto, muitas espécies estão ativas durante todo o dia e há, naturalmente, as espécies noturnas.

Também há épocas do ano melhores para as observações, que são os períodos reprodutivos que se iniciam no final do inverno boreal, início da primavera estendendo ao longo do verão, o mesmo dizer período chuvoso.

                                


                                              sabiá-do-banhado (Embernagra platensis)


sábado, 26 de março de 2016

Ilustração Científica

A ilustração científica através de desenhos e ilustrações representa um ramo da biologia que explora, de forma minuciosa, os ambientes naturais e os espécimes da flora e da fauna. A sua característica principal é a fidelidade e exatidão dos traços em suas cores, formas e textura, o que garante o reconhecimento e identificação a serviço das ciências.

As ilustrações são muito utilizadas, normalmente, em teses e artigos voltados para a área ambiental. Podem ser muito comuns em livros guias ou didáticos de espécies, tanto na botânica quanto na fauna, onde o autor opta pela ilustração ao invés de utilizar fotos.


                                         
                                            Ilustração: Fernando Capela
                                            papa-taoca-do-sul (Pyriglena leucoptera)
                                            Técnica: Lápis de cor aquarelável

Existem várias técnicas e materiais a serem utilizados os quais necessitam de um rigor técnico, detalhamento profundo e conhecimento científico do objeto a ser desenhado. Geralmente esses ilustradores são biólogos, artistas plásticos ou grandes apreciadores da natureza, o que facilita o conhecimento das estruturas do objeto, de cada parte do corpo animal ou vegetal. Para essas pessoas, capacitadas para tal tipo de ilustração e/ou desenho, sua forma de observação é diferenciada.

É uma atividade carregada de emoção e sensibilidade, já que esses aspectos são visivelmente observados nas obras. Além disso, ganha muitas vezes um caráter artístico e estético, sem interferir, é claro, no seu fundamento científico.



                             
                                 Ilustração Fernando Capela, reprodução foto de Edson Endrigo.
                                 suruacuá-de-barriga-amarela (Trogon rufus)
                                 Técnica: lápis de cor aquarelável e giz pastel seco

A ilustração científica foi muito difundida aqui no Brasil por naturalistas europeus nos séculos XVII, XVIII e XIV. Para retratar seus trabalhos e compilar informações esses utilizaram de várias técnicas de ilustração, das mais diversas pinturas, feitas principalmente a óleo. Muitas dessas obras podem ser registradas no instituto Itaú Cultural localizado na Avenida Paulista, São Paulo - SP.


quinta-feira, 10 de março de 2016

Pedralva no Terra da Gente

Em 2009, a Cemig, Companhia Energética de Minas Gerais S.A. decidiu implantar uma linha de transmissão passando pela Serra do Barreiro, cruzando a Serra da Pedra Branca. O Barreiro é uma serra paralela à Serra da Pedra Branca constituída de um grande fragmento de mata atlântica no município detentora de grande biodiversidade. Na época, com a ONG Grupo Excursionista Pedra Branca, decidimos criar um laudo técnico da biodiversidade local para barrarmos as pretensões da Cemig.

O que nos chamou a atenção foi o aparecimento do sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), espécie endêmica da região Sudeste em vias de extinção, categoria vulnerável (VU) pela lista de espécies ameaçadas pelo COPAM (Conselho Estadual de Política Ambiental) e pela IUCN red list. É bem verdade, a espécie é muito comum na região, abrangendo poucas cidades, já que a invasão do sagui-de-tufos-pretos (Callithrix penicillata) pode ser a principal causa da ausência desse sagui em grande parte do Sudeste.

Lembro-me que esse sagui nos chamou mais a atenção foi pela sua peculiaridade, um tanto diferente dos outros membros da família o que logo me veio a cabeça entrar em contato com o Terra da Gente, um programa semanal, do grupo EPTV, afiliada da rede Globo.

Mandei um e-mail para o programa um tanto despretensioso, acreditando que não teria um retorno satisfatório. Descrevi o sagui e sua particularidade por aqui. Tempos depois recebo uma resposta do produtor do programa me escrevendo: "me fale sobre o macaco. " Logo após, o Terra da Gente pisava em Pedralva, em setembro de 2015, encabeçado pelo repórter Eduardo Lacerda para ver o sagui e retratar a biodiversidade da região, especialmente a Serra da Pedra Branca.




Pouco se sabe sobre a biologia desse primata. Ainda pouco descrita pela literatura, não sabemos ao certo o grau de interferência de suas populações. O fato é que a espécie perdura na região e pode ser observada em qualquer fragmento de mata. 

  

                                Foto: Devanir Gino

saguí-da-serra-escuro (Callithrix aurita).

Um dado interessante abordado na reportagem foi essa pererequinha de inverno. Pouco descrita pela ciência e provável residente da região de Poços de Caldas - MG, a espécie se limita numa localidade da Serra da Pedra Branca se estabelecendo em uma área de apenas 50 m².

                                        

Scinax sp.

A degradação ambiental, ostensiva pelo homem nas últimas décadas fez com que áreas florestais milenares deixassem de existir. Essas áreas, designadas matas primárias, são consolidadas como raras e altamente biodiversas, especialmente pelo histórico local, ou seja, foram centenas de anos de acúmulo de matéria orgânica, ciclagem de nutrientes e fluxo de energia.

A Serra do Barreiro possui uma pequena área em que é possível detectar uma mata primária. Árvores enormes, com pouca vegetação no solo e abundância de palmito-juçara (Euterpe edulis), espécie ameaçada dependente de áreas úmidas e sombreadas.


                                           


jequitibá (Cariniana sp.).